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2006 -
A “parada” mais movimentada do mundo Da batida eletrônica ao som de uma flauta doce na maior manifestação GLBT do planeta Masturbação coletiva No metrô, algumas estações antes, já era possível constatar que algo estava para acontecer. Uma quantidade enorme de pessoas com roupas coloridas fizeram o mesmo percurso que o meu: da Sé para o Jabaquara, baldeação no Paraíso com novo embarque sentido Vila Madalena. Os trajes típicos com as cores do arco-íris se misturavam com as roupas monocromáticas de vendedores que traziam suas caixas térmicas carregadas de vinho Chapinha, batida, cerveja e, eventualmente, água. – Já deve estar lotado lá –disse uma mulher que acompanhava um vendedor. – Ouvi dizer que hoje vai ter muita lésbica –retrucou o homem, e os dois riram muito. Cheguei na Consolação meia hora mais tarde do que havia combinado com minha amiga Adriana Francisco. Ela se dispusera a me acompanhar e marcamos nosso encontro para as onze horas. A parada começaria efetivamente às duas da tarde, mas seria impossível entrevistar alguém com o trio elétrico em movimento. A Avenida Paulista já estava lotada. A maior concentração era sob o prédio do Masp. Para o meu terror, ali o som já estava ligado. Tocava Madona e a galera delirava com a música. Sugeri que andássemos um pouco. Na rua, travestis dançavam sensualmente –alguns deles com muito pouca roupa. Um mendigo sentado na calçada se masturbava observando o movimento. – Você viu o mendigo se masturbando? –perguntei à Adriana. – Não, cadê? Voltamos alguns metros para eu tentar mostrar a cena a ela mas o sujeito já fechava o zíper e abotoava o cinto.
Seguimos adiante. O ar tinha o cheiro de fumaça, os caminhões do trio elétrico estavam com os motores ligados. Cerca de 20 caminhões enfileirados esperando a hora de animar ainda mais a festa. A maioria era de patrocinadores diretamente ligados ao mundo gay. Canais de TV a cabo, sites especializados, carros oficiais da parada, ONGs etc. A propaganda, tanto comercial quanto ideológica, era intensa também nas ruas e se dava pela distribuição de flyers. Movimento de Visibilidade Lésbica, lojas de cosméticos, boates, salões de beleza para homens (que ofereciam como maior atrativo a depilação masculina) foram algumas das propagandas que recebi. O comércio ambulante se aproveitava bem da ocasião. Havia inúmeros vendedores de bebida, cigarro, doce, cachorro-quente, bandeira com as cores do arco-íris e com a frase “Homofobia é crime” (tema da Parada desse ano). A intrusa bandeira verde-amarela também estava lá por ocasião da Copa do Mundo, que adiantou em um dia o evento –no domingo, dia 18, a seleção brasileira enfrentaria a Austrália. Um vendedor parecia ignorar a movimentação e a batida da música eletrônica que repercutia por toda a parte, mais, ou menos, intensamente. Ele trazia uma caixa com flautas presa ao corpo e seguia tocando suas músicas em uma delas. O sujeito tocava bem, cruzamos com ele várias vezes. Comecei a buscar pessoas para entrevistar. O difícil era que, onde elas se aglomeravam, a música era alta demais, e, onde a música era baixa o suficiente, todos passavam com pressa em direção ao som e ao agito. Eu olhava para todos os lados esperando encontrar alguém com cara de disposto a dar entrevista, percebi que alguns olhares retornavam mas os interpretei como flerte. A situação começou a me incomodar. Havia lido que a Associação da Parada do Orgulho GLBT, responsável pelo evento aguardava 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista –a PM estimava a participação de 2,5 milhões. Tanta gente e eu não era capaz de estabelecer contato. Até que encontrei dois rapazes parados, provavelmente esperando por alguém. Tomei coragem e comecei a conversar com um deles. – Esse é meu quarto ano de parada. Vim a duas aqui no Brasil, em 2003 e 2004. No ano passado, eu fui na de Chicago e esse ano eu estou aqui de novo –disse o rapaz que se chamava Edison Lopes, de 22 anos, analista de recursos humanos. – Você percebeu alguma diferença entre a parada fora do Brasil e a daqui? –perguntei a ele. – A parada fora do Brasil é mais consciente quanto à cidadania. A festa não é tanta que nem aqui. Lá fora é mais “parada” mesmo, como uma parada militar. Continuei a conversa. Ele não usava roupas coloridas mas trazia um lenço com as cores do arco-íris no pescoço. Lembrei-me da parada de 2005, quando tudo o que vi na televisão sobre o movimento eram homens em “trajes de mulheres”, com plumas, purpurina e muita exibição do corpo. Perguntei se ele via problema nesse recorte que a imprensa dava. Ele me falou que isso realmente acontecia mas eu deveria entender que no mundo gay existe um leque muito grande de masculinidades e feminilidades. Falamos um pouco sobre coisas fora da parada. – Você vai a outros lugares GLBT? – Ah, sim. Vou a casas noturnas sempre e, de vez em quando, participo de alguns encontros para discutir a questão da parceria civil. Quis saber, também, se ele ia a lugares em que a maioria dos freqüentadores eram heterossexuais. “Também, também.” Pedi que comparasse os ambientes. “A diferença é nenhuma. A única coisa é que nos ‘gays’ você vai ver homem com homem e mulher com mulher e no ‘hétero’ você vai ver homem com mulher somente, nada mais que isso”, disse Edison. Comecei a perceber uma inquietação por parte dele. Pensei que ele talvez quisesse ir participar da festa, então fiz uma última pergunta: – Você acha que essa Parada vale mais como festa ou como protesto? – Protesto, protesto. Eu ainda sou idealista, acredito no protesto. Apontei o gravador para o outro cara. Alan Cruz, estudante de Jornalismo pela Unisa (Universidade de Santo Amaro), de 24 anos. Aquela, que era a décima Parada do Orgulho GLBT, era a quarta de Alan. Ele também acredita que o significado maior daquilo era o protesto. A preocupação dele é que o gay se torne um número na sociedade: “Ano passado saiu na ‘Folha de S. Paulo’ uma matéria dizendo que a parada gera uma ótima repercussão na economia. Infelizmente, para políticos e para muitos cidadãos, a gente representa apenas um número”. E é verdade. A São Paulo Turismo S.A. se baseou no ano de 2005 para chegar ao incrível número de R$ 200 milhões que seriam movimentados com a Parada do Orgulho Gay desse ano. O turismo foi apontado como uns dos principais responsáveis por essa quantia. Sendo assim, a prefeitura investiu R$ 500 mil no evento, R$ 100 mil a mais que ano passado. Agradeci e me despedi dos rapazes. Minha amiga se aproximou e chamou minha atenção para que eu visse o que acontecia na outra faixa da avenida. O apresentador da TV Bandeirantes, Otávio Mesquita, falava segurando um microfone e olhando para a câmera. Alguns seguranças expulsavam quem entrasse no seu caminho. Rapidamente Mesquita, seu câmera-man e seus seguranças se afastaram. Eles andavam na direção da festa. A gente foi para o outro lado. A poucos metros adiante, um grupo de travestis dançava freneticamente. Eu queria uma entrevista com um deles. Adriana achou que um em especial parecia ser “gente boa”. Enrolei mais alguns minutos antes de tentar um contato. Aproximei-me, toquei em seu braço. Antes que ele pudesse perceber minha presença, algumas meninas chegaram e roubaram sua atenção para uma foto. Ele assentiu com a cabeça. A foto se fez, elas foram embora e eu consegui a atenção do cara. Expliquei o que eu estava fazendo ali, perguntei se poderíamos conversar um pouco. Ele fez uma espécie de careta contorcendo os lábios e depois respondeu que não dava. “Eu não sou a pessoa mais indicada para isso.” “Por que não?”, fiz a pergunta e emendei em seguida: “Você não precisa se identificar”. Mas ele me disse que não gostava de falar. Fiquei chateado e me afastei. Foi o tempo de eu dar as costas para que uma equipe do SBT se aproximasse do grupo e conseguisse filmar e falar com todos. Isso me deixou com raiva. Mas tudo bem, a TV sempre consegue o que quer. Além da Bandeirantes e do SBT, vimos também um carro da TV Globo estacionado nas redondezas, mas nem sinal de uma equipe de reportagem. Havia também muita gente com equipamento de fotografia profissional. Máquinas digitais caseiras pipocavam por todas as partes. Uma surgiu na mão de uma menina que fotografou seu amiguinho, aparentemente de uns dez anos, abraçado a dois homens que dançavam de sunga, botas e chapéu de vaqueiro. Duas coisas me chamaram a atenção nessa cena. Uma era a pouca idade do menino, mas ele provavelmente era mais velho que algumas crianças que passavam vendendo cigarros. A outra é que, a partir daí, percebi muita gente usando fantasia de vaqueiro. “Brokeback Moutain”, certeza que é por causa do filme, pensei. Era difícil encontrar gente sozinha. Muitos estavam em casais, mas a maioria andava em grupos de seis a oito pessoas. Isso dificultava minha vida. As pessoas sozinhas ou em casais são mais acessíveis. A turma geralmente quer partir e os membros apressam uns aos outros. Percebi isso ao reparar na forma que dois grupos interagiam quando se encontravam ao acaso. Ambos elegiam um membro, geralmente eram do mesmo sexo, eles se cumprimentavam e começavam a se beijar. Os amigos não esperavam muito tempo, o beijo tinha que ser interrompido antes que o grupo saísse de vista. Assisti por pelo menos quatro vezes a esses encontros casuais. Só uma vez se deu entre uma menina e um menino. Casais heterossexuais também passeavam por lá. Colher a opinião de algum sobre a Parada não me pareceu má idéia –na verdade, constava na pauta. Gustavo e Rosângela têm na casa dos 30 anos. Ambos trabalham com turismo. Eles estavam sentados num canteiro da calçada da faixa não-interditada da Paulista –pelo menos não oficialmente, mas o fluxo constante de pessoas certamente complicou o tráfego de veículos. As semelhanças entre os dois não paravam na idade e na profissão: o discurso deles era muito parecido também. Ele: “Acho que cada um na sua, respeitando a vocação de cada um e... cada um na sua”; ela: “Eu acho bacana, que nem ele falou, cada um na sua. Eu acho bacana”. Sobre o que estavam fazendo lá, Gustavo me disse que era para “curtir a música e ver as diferenças”. O som do caminhão de trio elétrico parado em frente foi ligado. A batida era ensurdecedora. Fiz mais uma pergunta antes de interromper nossa conversa: – Vocês acham que a Parada ajuda a diminuir o preconceito? Rosângela se antecipou e respondeu: – É difícil falar. Cada um realmente pensa de uma forma. Eu não tenho preconceito, agora os outros... Agradeci aos dois. Pensei em ficar irritado com o som quando percebi que o que tocava era a música “Drop the Pressure”, faixa quatro do “Destroy Rock & Roll”, disco do DJ Mylo, um dos meus favoritos. Até ensaiei alguns passos de dança com minha amiga Adriana. Enquanto olhava ao redor tentando decidir o que fazer, algo me chamou a atenção. A inscrição “Igreja da Comunidade Metropolitana” na camiseta de um grupo de homens. Aquilo me intrigou. O que essa igreja estaria fazendo na Parada do Orgulho GLBT? Foi justamente isso que perguntei a um deles, o pastor de 44 anos Gélson Píller. Ele me explicou que era uma igreja inclusiva, que, assim como Deus, não fazia acepção de pessoas por conta da orientação sexual; essa era a mensagem que queria passar na parada. “Nós aceitamos homossexuais, eu sou homossexual”, contou o pastor. Depois de conversar um pouco com Gélson e com outros pastores da Igreja Metropolitana, reparei que aquele não era o único grupo religioso presente. Vi senhoras usando lenços de arco-íris distribuindo orações. Havia também um outro grupo com camisetas: eram da Comunidade Cristã Nova Esperança. A presença de igrejas chocou a minha cabeça de ateu. Desconhecia a existência de religiões abertas. Mas o deslumbre durou pouco, logo me veio o seguinte: “são quase 2 milhões de pessoas aqui, um ótimo lugar para angariar fiéis”. Foi o mesmo que pensei quando vi a bandeira do PSTU tremulando ao vento. Não tenho má impressão do partido, mas sempre hesito em acreditar no coração bom de políticos e religiosos. A Parada havia se iniciado de fato. O trio-elétrico ligado. Pessoas dançando muito. Eu e minha amiga resolvemos ir para o meio da galera ver se algo acontecia. Antes, tentei falar com um casal de mulheres. Mais uma vez expliquei minha situação (Diego, estudante de Jornalismo, fazendo reportagem etc.). Perguntei se poderíamos conversar mas elas ficaram em silêncio. – Será que vocês podem me ajudar? -insisti. Não houve resposta mais uma vez, elas apenas me encaravam. Talvez estivessem chapadas ou não tinham me entendido, uma coisa leva a outra. De repente, uma menina surge do meu lado, coloca um braço sobre meu ombro e outro sobre o ombro de uma das outras garotas. – O que tá acontecendo? –quis saber a intrometida. – Não tá acontecendo nada –respondi com um sorriso no rosto. Então percebi que ela era amiga das duas. Veio avisar que o grupo delas estava indo ao banheiro e que era para todos irem juntos. “Malditos grupos”, pensei. A menina se afastou. Continuei com minhas amigas de pouco –nenhum– diálogo. “Pode ser?”, já estava me sentindo chato por teimar tanto. “Aaaahhh!”, gritei internamente por não receber resposta, nenhum gesto, nada. “Não vai poder ser?”, praticamente tive que dar um fora em mim mesmo. Finalmente uma resposta, uma delas balançou a cabeça em sinal de “não”. Na camiseta dela, “I’m not a gay, but my girlfriend is” (eu não sou gay, mas minha namorada é). Quando um dos caminhões tocou Cássia Éller, houve um entusiasmo coletivo. “Quem sabe ainda sou uma garotinha...”, aquilo era um hino cantado em coro. No alto dos caminhões do trio-elétrico de canais e sites, havia modelos dançando de sunga branca entre convidados vestidos. Nos carros das ONGs, pulavam pessoas mais recatadas. A Adriana queria ver o Alexandre Frota que supostamente estaria em algum dos caminhões, mas a gente não o encontrou. Toda aquela gente pulando. O volume da música era demais para meus tímpanos, mas eu parecia o único incomodado. Um casal de homens se beijava a menos de 40 centímetros dos alto-falantes. O vendedor de flautas passou novamente, dessa vez não pude ouvir uma só das suas notas doces. Talvez ele nem estivesse soprando mais. Não conseguia ver minha amiga. Preocupado, a procurava com os olhos, mas sem parar de andar. Senti alguém agarrando meu ombro. Foi um alívio para mim ela ter me encontrado. – Anima, anima, é festa –a voz não era a dela. Olhei para trás. Um cara pulava segurando meu braço. “Anima”, repetiu o rapaz. Sorri para ele, respondi que não dava e continuei. Finalmente vi Adriana. Ela conversava com uma moça. A menina disse alguma coisa e Adriana respondeu que não. Alcancei-a. “Aquela menina queria me beijar”. “Você não quis?”, perguntei a ela. “Não”, foi a resposta que recebi. “Você devia ter aceitado”, disse isso e o assunto se encerrou. A gente se despediu por volta das quatro horas da tarde. Adriana foi procurar seu ônibus e eu segui para as escadas de acesso ao metrô Consolação. Antes disso, recebi mais algumas camisinhas que estavam sendo distribuídas por toda a Paulista. Mais tarde, em casa, contei 29 preservativos. Junto eram dados informativos sobre doenças sexualmente transmissíveis e sobre como colocar a camisinha com a mão e com a boca. Aquilo era o máximo, nunca tinha visto instruções de como pôr com a boca. Muita gente subia as escadas rolantes do metrô para a Paulista. As estações principais (Paraíso e Sé) estavam completamente abarrotadas de pessoas indo para a Parada. Faziam muito barulho. Os demais passageiros esboçavam cara feia e eram ofensivos em seus comentários. Para não ouvir mais nada, coloquei meus fones de ouvido e aumentei o volume, mais um pouco de música alta não faria tanto mal assim. |
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